sábado, outubro 18, 2008
Abençoada Crise
Alguém pensaria que era possível vivermos sempre, e cada vez mais, a crédito?! É que se assim fosse chegaríamos ao ponto de vivermos com o dinheiro que os nossos descendentes iriam pagar, daqui a anos, e passaríamos a nascer todos já com grandes dívidas.
A economia funciona num espaço temporal limitado. Empresta-se hoje para se receber – mais – amanhã. Ninguém empresta para não receber em tempo útil. Tal como nada serve
uma fortuna que só se vai herdar depois da morte.
É tempo de aprendermos a viver com aquilo que temos e não com aquilo que pensamos que podemos ter. É tempo de aprender a saber gerir o nosso dinheiro e deixarmos de viver com dinheiro que não é nosso. É tempo de sabermos dizer não a milhões de coisas que consumimos mas que na realidade não nos fazem falta.
É tempo de sermos saudáveis. De não comprarmos tudo o que nos aparece e que nos é proposto.
Milhões de fábricas trabalhavam em grande velocidade a produzir coisas que compramos sem precisar com dinheiro que não é nosso. Milhões de pessoas trabalhavam a correr para ganhar mais dinheiro para pagar mais coisas que compravam e que só as prejudicavam.
Televisões, telemóveis, consolas, óculos do sol, fast food, piscinas, ginásios, medicamentos, produtos de beleza, cartões de crédito, móveis, automóveis, casas de férias, viagens… Tudo isto pode parecer muito bom mas na maior parte só nos prejudica. Para não falar do mal que fazemos ao viver stressados com o trabalho e com as dívidas.
É tempo de repensar os nossos objectivos. De pensarmos no nosso bem real e não no nosso bem aparente – de consumismo – que só beneficia os outros. É tempo de sermos saudáveis com a simplicidade das nossas terras, dos nossos amigos, da nossa família, do nosso tempo livre, da nossa saúde e do nosso ambiente.
Cada coisa que vamos deixar de comprar com a crise, é cada uma com a qual contribuímos para o nosso bem e para o bem dos outros e do planeta. Os recursos do nosso planeta também se esgotam como se esgotou o dinheiro. Porque os gastamos de forma tão abrupta que não permitimos que se renovam.
Ainda bem que o dinheiro acabou para assim pouparmos o ambiente e a saúde. Ainda bem que foi a economia a decretar os limites à nossa fome de recursos da terra, para assim podermos viver mais uns anos, uma vez que pela nossa mente insaciável não conseguíamos parar de a absorver. Alimentos, plásticos, papel, fibras, energias… de onde vem tudo?!
Abençoada crise, para bem do ambiente, e de uma vida saudável!...
sábado, maio 03, 2008
O Estado da Psicologia em Portugal
A Psicologia é uma ciência recente no contexto da evolução científica ocidental, com pouco mais de um século de existência, encontrando-se ainda numa fase de estruturação, com diversas correntes teóricas ainda não totalmente consistentes.
É uma ciência que surge no topo da evolução humana, após se especificarem conceitos amplamente apreendidos, com base em diversas disciplinas científicas, entre as quais se distinguem a medicina e a filosofia.
É, assim, uma ciência, da qual surge uma prática profissional, que apenas reúne condições para se estabelecer em sociedades desenvolvidas e civilizadas.
A utilização do conhecimento científico da Psicologia no âmbito da acção para o desenvolvimento humano começou por se estabelecer em contextos institucionalizados, uma vez que, no passado, as pessoas que sofriam de perturbações psicológicas não eram considerados doentes, e lhes era vedada a vida normal em sociedade sendo colocados compulsivamente em “asilos” sem qualquer tipo de acompanhamento. Por essa razão, os Psicólogos começaram por ser identificados como aqueles que tratavam os “malucos”, sendo que foi esse tratamento que derrubou as barreiras dos asilos devolvendo a dignidade a essas pessoas, que passaram a ser doentes e tratados em hospitais.
Se nos países evoluídos a Psicologia ainda está a nascer – em termos de consistência científica - em Portugal, a sua introdução nas universidades, e na sociedade, é muito mais recente, com apenas algumas dezenas de anos.
No entanto, por ser uma ciência no topo do conhecimento – estuda o que o ser humano tem de mais nobre, enquanto pessoa que sente, pensa e age – uma ciência que cresce nos países mais evoluídos que todos querem imitar, e aparentemente uma ciência acessível, tornou-se alvo de procura por todos os que buscam o conhecimento, ou apenas o crescimento académico.
As universidades e as faculdades encontraram aí uma fonte de sucesso, não só porque a procura por parte dos estudantes era elevada, mas também porque a resposta por parte dos docentes podia ser vasta e sem grandes barreiras teóricas nem supervisão por qualquer tipo de entidade.
Formaram-se assim muitos milhares de estudantes em Psicologia que muitas vezes partilham poucos conhecimentos teóricos entre si. E transportaram essa formação “deformada” para a vida profissional - quando a conseguiram alcançar.
A intervenção da Psicologia no âmbito das políticas de saúde é, desta forma, estabelecida sem a existência de uma ordem, um colégio, ou uma entidade que coordene, indique, ou fiscalize.
Pelo caminho surgem várias organizações que pretendem assumir esse papel, sem que nenhuma delas encontre consistência suficiente para o fazer, também porque as diferentes formações e correntes teóricas tentaram impor-se umas perante as outras, criando mais divisões que uniões.
Devido à acção dos Psicólogos, até então, e ainda que, desorganizada, foram criadas necessidades na população no que concerne à intervenção psicológica. Tal intervenção é, por demais premente, em muitos contextos, nomeadamente na saúde mental, no desenvolvimento escolar, no planeamento familiar, na justiça, nos comportamentos de risco, nas situações de catástrofe, para além das intervenções nas organizações, nas comunidades, no desporto, a comunicação e no marketing, etc. Ou não fosse Portugal já
um país desenvolvido!
Estas necessidades têm sido colmatadas com o trabalho dos muitos Psicólogos que, ao longo dos anos foram estabelecendo a sua intervenção, com mais ou menos sucesso, e principalmente por um enorme número de Psicólogos, com relativa precariedade, com recurso a subsídios em determinados programas, recibos verdes, trabalho voluntário e estágios.
O número de pessoas formadas em Psicologia em Portugal é muito elevado tendo em conta a população, e as universidades continuam a formar, a cada ano que passa, centenas de novos licenciados em Psicologia.
Cresce assim o número de licenciados em Psicologia que não encontram trabalho nessa área, bem como as frustrações de quem apostou numa carreira, eventualmente de sucesso, no topo do conhecimento, que afinal se traduz num enorme fracasso.
Tudo isto acontece porque no interior da profissão/ciência, ninguém se preocupou em definir regras, nomeadamente os primeiros Psicólogos formados em Portugal. As universidades, por sua vez, apenas se preocuparam com o número cada vez maior de alunos e cursos, pois é daí que advêm as suas receitas. E no exterior, naqueles que deviam determinar os acessos às universidades e às profissões, de acordo com as necessidades reais e previsíveis do país, também nada se fez. Nos governos, os ministérios da educação/ensino superior e do trabalho, ao longo de todos estes anos, nunca se preocuparam com este problema.
Na Assembleia da República encontra-se há muito uma proposta para formalizar a criação da Ordem dos Psicólogos. Mas, por algum motivo, tal formalização parece não avançar. Ou porque os Psicólogos não querem, ou porque os governantes não querem.
Certo é que, após a sua aprovação, eventualmente muitos dos actuais e novos licenciados em Psicologia não terão acesso à profissão de Psicólogo. Mas isso é apenas o caminho que tem que se seguir, com organização, já que o acesso está limitado por natureza, sem organização.
Se a Ordem, ou qualquer outra organização não for criada, e os Psicólogos continuarem a procurar os bancos alimentares para sobreviverem, isso apenas será o resultado daquilo que construirmos.
E se alguém ainda continuar a pensar que a Psicologia é uma ciência desnecessária, é porque se sente a viver num país de terceiro mundo que excluí os doentes. Esquecendo-se que um dia pode adoecer.
3 de Maio de 2008, Sá Lopes
segunda-feira, junho 11, 2007
Ter uma Profissão
Ter uma profissão
A maior parte do nosso tempo é passado no local de trabalho. Muitas vezes o local de trabalho não é um local agradável nem tão pouco saudável. No entanto, as necessidades diárias obrigam a tal sujeição. E a vida continua, com as dificuldades permanentes e com a esperança de um dia melhor, que nunca chega.
Umas vezes isso acontece porque aquilo que fazemos é o resultado das circunstâncias – é o que sabemos fazer; ou onde há emprego, ou onde se ganha mais, ou onde se entra nos quadros, ou onde podemos progredir, ou parece bem…
Outras vezes, aquilo que fazemos é exactamente aquilo que escolhemos fazer. Aquilo que desejávamos desde crianças, para o qual nos formamos, para o qual nos candidatámos e conseguimos, ou porque tínhamos competência ou porque tínhamos alguém que nos ajudou. Mas nem sempre essa escolha é bem fundamentada.
De uma forma ou de outra, a realidade com que deparámos é pior daquilo que alguma vez esperámos. Ou porque fomos vítimas do nosso destino, ou porque fomos vítimas das nossas opções mal fundamentadas. E se pudéssemos mudávamos! Se pudéssemos voltar a trás... Se soubéssemos antes... Se alguém nos tivesse avisado!...
Mas ninguém nos avisou. E talvez agora já nem haja muito a fazer, porque a vida tem que ir para a frente e as mudanças custam.
Mas… E os nossos filhos?! Será que vamos querer para eles o mesmo que nos aconteceu? Será que não podemos fazer nada, ao menos por eles?
Sabiam que uma profissão pode começar a ser escolhida desde criança? Sabiam que quantas mais profissões se praticarem a “fazer de conta” melhor pode ser escolhida uma profissão a sério? Sabiam que o contacto com várias realidades de trabalho ajuda a escolher melhor aquilo que se quer fazer? Sabiam que há pessoas com mais aptidões para um tipo de tarefas e outras para outros? Sabiam que até essas aptidões necessárias para determinada profissão podem ser desenvolvidas, e que quanto mais cedo se desenvolverem maior será o sucesso futuro?
Sabiam que há pessoas especializadas em ajudarem os outros a escolher a profissão mais adequada? Pessoas que avaliam as nossas aptidões, competências, potencialidades de desenvolvimento, e nos indicam para que é que temos mais habilidade e onde é que seremos mais bem sucedidos. Pessoas que nos indicam o que devemos desenvolver se pretendemos alcançar determinada profissão.
Sabiam que em Portugal há uma Classificação Nacional de Profissões elaborada pelo Instituto Europeu de Formação Profissional e que contempla cerca de 1700 profissões, devidamente classificadas e agrupadas, e que serve de base à formação profissional, à regulamentação e às colocações?
Sabiam que na internet facilmente se encontra o perfil funcional de cada profissão, assim como o respectivo salário médio, os principais empregadores e outros aspectos relacionados?
A forma de se obter maior satisfação no trabalho é aliar o perfil de uma pessoa ao perfil de uma função.
Pelo futuro dos seus filhos, preocupe-se também com isto.
Sá Lopes (2005)
sexta-feira, junho 08, 2007
Viver sem Deus
Viver sem Deus
Numa entrevista recente a uma das principais estações portuguesas de rádio, a propósito da publicação do livro “A criação do mundo”, Jean Dormesson, filósofo e romancista francês, afirmou que tem amigos que sabem de certeza absoluta que Deus existe, tem outros amigos que sabem de certeza absoluta que Deus não existe, enquanto que ele próprio tem a certeza absoluta que não sabe se Deus existe ou não existe, mas espera que exista. E quando o entrevistador lhe pergunta “e se Ele não existir?!” o autor diz que “então a vida é uma comédia” – no sentido em que é também uma tragédia – deduz-se.
Conclui-se por este pequeno raciocínio que a vida só faz sentido pela existência de Deus, uma vez que viver apenas “neste mundo” seria algo sem significado e absurdo.
De facto é com base nesta ideologia que a maior parte das pessoas assenta a sua realidade. Vive-se de acordo com as leis de “Deus” – seja ele que “Deus” for -, respeitando-o ou temendo-o, e por isso respeitando, ou não, os outros.
Simplificando, existem as pessoas que acreditam em Deus e respeitam os outros – ou não - por isso, e, existem as pessoas que não acreditam em Deus, e por isso, não sentem obrigação de respeitar os outros.
Acontece que a existência de Deus, para além de justificar os comportamentos da maior parte das pessoas, serve ao mesmo tempo para as desresponsabilizar dos comportamentos com consequências negativas.
Por respeitar tanto Deus – ou fazer de conta que se respeita – é que se fazem guerras, se mata, se maltrata e se abusa das outras pessoas.
Não seria muito mais simples vivermos de acordo com o que está ao nosso alcance, colocando de parte as religiões, os misticismos, os paraísos e os infernos de outros mundos, a subserviência as seres humanos que usam o nome de “Deus” para benefício próprio, a eternidade e outras fantasias apenas existentes na imaginação e na ignorância, e assim respeitarmo-nos mutuamente sem querermos impor o nosso poder aos outros!?
Não seria muito melhor o mundo se respeitássemos todos os outros com quem nos cruzamos na vida em vez de respeitar “Deus” e passar por cima dos outros!?
Porque razão a vida sem Deus tem que ser absurda?!
Se recuarmos no tempo encontramos pessoas que foram “queimadas” por muito menos que questionar a existência de “Deus”. Actualmente há pessoas que têm a certeza absoluta que “Deus” não existe e são totalmente respeitadas. Não será este um caminho que pelo conhecimento nos vai levar a uma vida plena, feliz, com significado, e sem “Deus”.
A vida dos animais e das plantas é perfeita e bela, do princípio ao fim, sem “Deus” – porque será que a nossa não pode ser!?
Já temos armas para nos defendermos dos animais da selva! Já temos armas para nos defendermos de ataques do espaço! Porque razão temos de nos andar a explorar uns aos outros?!
Porque razão uns se adornam com diamantes enquanto outros morrem ao escavá-los na terra?! Porque razão uns usam artigos de marcas famosas enquanto outros passam muitas horas por dia a produzi-los?! Porque razão uns vivem em palácios enquanto outros passam a vida a construi-los?! Porque razão uns vivem rodeados de luxo enquanto outros vivem no lixo dos primeiros?! Porque razão uns estão sempre em altos pedestais e outros têm que estar sempre curvados sob eles?!
Não seremos nós todos iguais?!
Quando é que vamos ensinar às crianças que devem ser melhores para os outros em vez de ser melhores que os outros!? Quando é que vamos ensinar às crianças que não foi “Deus” que fez o mundo, mas que somos nós que o fazemos a cada momento que passa!?
É tão fácil fazer o mundo melhor!... Basta sabermos que tudo está nas nossas mãos, que somos responsáveis por tudo, que os outros são exactamente iguais a nós e que devem ser tratados tal como nós gostamos de ser!
Infelizmente existe “Deus” para nos perdoar pelo facto de sermos incapazes de fazer um mundo melhor!…
Sá Lopes, Junho 2007
sábado, abril 28, 2007
Teoria Breve Sobre a Morte Mental
Teoria Breve Sobre a Morte Mental
Neste texto pretende-se publicar uma nota teórica sobre a morte mental, com o objectivo de poder ser verificada.
O conceito de morte mental aqui utilizado refere-se à percepção do acto de morrer, considerando-se a morte não como sendo a inexistência de vida, mas o processo de morrer, ou seja, a passagem do estado de vida – ter vida – para o estado de morte – não ter vida. Exclui-se aqui a abordagem religiosa.
A morte é, normalmente, um acontecimento não planeado e resultante de uma quebra no estado normal do ser vivo, muito provavelmente resultante de doença, acidente ou outro tipo de situação similar.
Assim, do estado de vivo para o estado de não vivo processa-se a morte, e dentro deste processo encontram-se outros dois estados intermédios, que são os estados de consciente e de não consciente.
O estado intermédio não consciente é o mais próximo da morte, e pode-se definir em duas abordagens: não consciente em relação aos outros e não consciente em relação a si.
Quando uma pessoa morre, passa do estado de vivo, para o estado de não vivo/morto, mas antes de alcançar este estado pode-se encontrar em três estados mentais diferentes: consciente, não consciente de si, e não consciente em relação aos outros.
Estar não consciente de si é quando a pessoa perde a percepção do que a rodeia, e se morrer, isso acontece sem qualquer conhecimento da própria morte e, provavelmente, sem sofrimento.
Estar não consciente em relação aos outros é quando a pessoa não manifesta qualquer sinal – como no estado de coma, por exemplo – mas, se morrer, percebe tudo o que se passa em seu redor, até morrer.
Estar consciente é quando a pessoa tem conhecimento de tudo o que se passa, e se morrer, tem percepção de tudo o que lhe acontece, até morrer.
Nos dois últimos estados, a pessoa, ao morrer, percebe o que lhe acontece, sendo que num pode-se manifestar e no outro não. E nos dois primeiros estados a pessoa não se pode manifestar, sendo que num percebe o que lhe acontece e no outro não.
Após se morrer, seja qual for o processo, não há retorno. No entanto, se não se alcançar o último momento do processo da morte, pode haver retorno, e regressar à vida – sendo que o regresso só é possível porque o processo não terminou.
As pessoas que estão inconscientes regressam à vida como se acordassem de um sono. Mas as pessoas que estão conscientes regressam à vida como acordassem de um sonho. Tal é o estado que a sua consciência alcançou ao aproximar-se da morte. O famoso túnel de luz, que a pessoa que passa por uma experiência destas relata, apenas será o fim do processo, que consiste na morte em consciência, quando a consciência se está perder, de forma irreversível.
Sá Lopes, 28 de Abril de 2007
terça-feira, janeiro 30, 2007
Aborto/IVG: Lavar as mãos
Aborto/IVG: lavar daí as mãos
S. Lopes, Braga
terça-feira, outubro 24, 2006
A Lei do Aborto
A Lei do Aborto
O REFERENDO sobre o aborto vai realizar-se novamente. Se votarem mais de metade dos portugueses o resultado é vinculativo. Se ganhar o SIM o aborto será legalizado. Se ganhar o NÃO, as forças pró-aborto vão pressionar o governo de forma a desvalorizar o referendo e legalizá-lo de qualquer forma. Conclusão: o referendo é um desperdício de tempo e de verbas.
O ABORTO já está previsto legalmente para as situações mais delicadas. Com a legalização que se pretende com este referendo o que vai acontecer é que as mulheres que vão a Espanha abortar já não terão necessidade de ir, e as que abortam ilegalmente em Portugal já não serão condenadas.
AS MULHERES não engravidam sós. Os filhos gerados nunca são só delas. Ainda que tenham condições para tomar a decisão de abortar, não lhes devia ser permitido fazê-lo isoladas. Ainda que a gestação aconteça apenas no corpo delas, a geração começou com a união dos corpos, que elas aceitaram. Os homens também deviam ser chamados à responsabilidade.
A LEI é igual para todos. Este é um chavão assumido. E é ele que produz a injustiça. Porque as mulheres da classe alta saem de Portugal para abortar os filhos que podiam – mas não querem – criar, e permanecem impunes. Enquanto que as mulheres da classe baixa abortam em Portugal os filhos que não podem criar e são condenadas. A lei, para ser justa, devia deixar de ser igual para todos, condenando as mulheres que abortam e têm condições para criar os filhos, e ajudando as mulheres que engravidam e não têm condições para criar os filhos.
OS VALORES em questão são mais económicos que humanos ou morais. Aqueles que defendem o aborto apenas desejam o próprio bem-estar, com comportamentos sexuais irresponsáveis, pois para ajudar as mulheres desprotegidas deviam antes investir na prevenção da gravidez, num melhor planeamento familiar, relacional e sexual, criando nelas mais auto-domínio para responderem de forma menos instintiva e irresponsável aos desejos sexuais próprios e dos outros.
A VIDA é demasiado especial e séria para que se brinque com ela. Quem a defende não precisa de se preocupar com este referendo porque, legal ou ilegal, o aborto nunca fará parte da sua realidade pessoal. As mulheres que abortam, e os homens que as apoiam, apenas provam a incapacidade para dominar os instintos de que a natureza lhes proveu. Aqueles que não chegam a nascer seriam infelizes ao saber que assim eram os seus pais.
Sá Lopes, Braga
segunda-feira, julho 10, 2006
Blogs, Bebés de Direitos da Criança
(artigo)
Blogs, Bebés e Direitos da Criança
Agora que está tão em voga o Plano Tecnológico do nosso Governo, em que todos os dias novas medidas no campo da tecnologia e informática são anunciadas, deveria ser pensado que consequências tais facilidades desse novo, e maravilhoso, mundo virtual, podem advir.
Proliferam aos milhares os blogs de pais babados, que desde o dia da concepção até… – não se sabe quando (provavelmente até ao dia em que os seus filhos cresçam e os condenem por tal) – publicam tudo o que se passa com eles – relatos, fotos, vídeos, o que fazem e o que não fazem, sorrisos e birras, alegrias e tropelias, a vida [e até a morte] – como se de troféus se tratasse. Porque não está ali qualquer acção originária dos bebés e crianças, mas apenas as ideias e opções dos seus pais, muitas vezes escondidas no anonimato, ou sob pseudónimos ou identidades falsas.
As imagens e as mensagens que passam em cada “post”, essas sim, são reais, bem expressivas das realidades de cada criança, quase sempre publicadas sem qualquer companhia, e responsabilização, adulta. E podem ser copiadas, usadas e abusadas por qualquer outra pessoa com qualquer outro tipo de intenções.
A Declaração Universal dos Direitos da Criança, no seu artigo 16º diz que a criança tem direito à Privacidade, à Honra e à Reputação.
Não estarão a ser violados os direitos das crianças, pelos próprios pais e familiares, nestas novas publicações?
Gostariam os pais destas crianças de verem os seus primeiros anos de vida expostos a quem tal desejasse?
Estarão os pais destas crianças dispostos a “apagar” estes blogs quando as suas crianças crescerem e assim o desejarem, depois da rede de relações – virtuais – que se criam durante anos de publicação?
Como vão eles um dia dizer aos seus filhos, já com ideias próprias, que todos têm, ou tiveram, acesso a toda a vida deles, desde que foram gerados?
Gostamos todos de recordar vidas cheias de sucessos, mas também todos gostamos de esquecer vidas menos bem sucedidas. E quantos destes blogs publicam essas vidas!
Quem defende estas crianças?!...
Sá Lopes
10 de Julho de 2006
terça-feira, julho 04, 2006
Metacognição: Pensar sobre o Pensamento
(artigo recuperado)
Metacognição: Pensar sobre o Pensamento
O ser humano não é como um brinquedo electrónico pré-programado para interagir com quem o vai usar e desenvolvendo-se conforme seja manipulado, com a condição de, se esse desenvolvimento não acontecer conforme o desejo do manipulador, poder ser reiniciado. O ser humano não possuí uma tecla a dizer “reset” que se possa premir para começar tudo de novo.
Apesar de todos os indivíduos possuírem naturalmente estruturas e faculdades físicas e mentais que lhes oferecem condições para terem uma vida inteligente, consciente, racional, auto-regulada, e de respeito para com os outros e tudo o que os rodeia, usando toda a liberdade desejada a par da responsabilidade exigida, poucos são os que fazem um uso inteligente e eficiente dessas características, pois a grande parte não reconhece a existência das mesmas, porque não pensa sobre elas.
A metacognição - -processo cognitivo que se aplica a si próprio, ou seja, o pensar sobre o pensamento - - encontra-se num crescendo reconhecido como aspecto fundamental da psicologia humana, definindo-se pelos seguintes atributos: o conhecimento que o individuo tem dos seus próprios processos cognitivos; a tomada de consciência desses processos; e o controlo que o indivíduo tem dos seus próprios processos mentais.
Iniciando-se na década de setenta e apoiando-se inicialmente nas teorias do processamento de informação, a metacognição surge na corrente cognitivista positivista, fomentando a importância do reconhecimento dos processos cognitivos, não só no que respeita ao processo em si, que possibilita um uso mais adequado das capacidades de percepção, atenção, memorização e compreensão, permitindo uma maior auto-regulação, mas também no que respeita à aplicação eficiente do mesmo, desempenhando um papel importante em áreas fundamentais como a aprendizagem escolar, a comunicação oral e escrita, a produção escrita, o desempenho de tarefas, e a resolução de problemas de ordem social, interpessoal e emocional.
A metacognição expande-se no mundo científico essencialmente devido aos elaborados programas educacionais que actuam no sentido de permitir ensinar a pensar, ou aprender a aprender, tentando fazer com que o indivíduo conheça os seus próprios processos cognitivos, que tome consciência deles, e que tenha o maior domínio mental possível sobre os mesmos, e tendo consequentemente uma maior auto-regulação emocional e comportamental.
Se estes programas funcionassem efectivamente poder-se-ia considerar a sua função análoga à dos brinquedos electrónicos, mas o ser humano não é pré-programado logicamente, e quando possui capacidade para operacionalizar mentalmente informação é já possuidor de estruturas cognitivas, que se vão desenvolvendo ao logo do tempo. Por esta razão faz mais sentido considerar a metacognição numa perspectiva desenvolvimental reconhecendo que o indivíduo só pensa quando possui estruturas que lhe permitem pensar e se deseja pensar sobre o próprio pensamento, esse pensar será condicionado por essas estruturas. Desta forma, se determinados programas educacionais não forem aplicados em tempo adequado perder-se-ão, pois as condições naturais do indivíduo para aceder a esses programas serão modificadas e tornar-se-ão irreversíveis.
Reconhece-se, assim, que a problemática da metacognição existe nas vertentes individual e social. Se o objectivo da ciência em geral, e da psicologia em particular, é caminhar no sentido de construir um mundo melhor, o papel da metacognição interfere nessa construção exigindo um reconhecimento por parte do sistema social/governamental/educativo das características cognitivas e desenvolvimentais existentes em cada indivíduo e actuar no sentido de explorar essas características, visado formar cada ser humano mais autónomo, mais consciente e mais integrado numa sociedade mais justa e mais humana.
No entanto, são ainda colocadas muitas questões relativamente a metacognição, tais como: Serão as actividades metacognitivas similares aos processos cognitivos quanto ao modelo estrutural, ou representarão categorias separadas? Como pode um indivíduo reflectir sobre os seus próprios processos cognitivos? Poderá o conhecimento metacognitivo afectar as decisões comportamentais, nomeadamente as de forte impacto emocional? Serão os processos cognitivos iguais em todos os indivíduos? Como pode um indivíduo saber o que sabe, ou saber o que os outros sabem? Como tem acesso aos seus próprios pensamentos, sentimentos e atitudes? Que precisão existe nos pensamentos, sentimentos e atitudes próprias, e que precisão existe sobre os pensamentos, sentimentos e atitudes dos outros? Os processos que regem o auto-conhecimento serão iguais aos que regem o conhecimento dos outros?...
Embora hajam estruturas e processos cognitivos análogos em todos os indivíduos - somos seres humanos e não de outra espécie - cada um é fruto de um desenvolvimento particular que influencia a percepção de si próprio e dos outros. E como a estratégia de reconhecimento e desenvolvimento das capacidades metacognitivas consiste na experiência individual, inclusive através da repetição/treino, ainda que para muitas metas da vida essas capacidades sejam decisivas, para outras, talvez as mais importantes, toda a metacognição é dispensável: nenhuma mulher treina o nascimento de um filho.
Sá Lopes (ano 2000)
quarta-feira, abril 05, 2006
Meta-o na boca e chupe!
Artigo-provocação
Meta-o na boca e chupe!
“Há uma coisa que é redonda, comprida, e com a ponta vermelha, que você, com muito cuidado, abre o lugar onde esta se encontra e tira-a para fora com os dedos, sem machucar, e depois, mete-a na boca, e chupa-a. Chupa-a até não poder mais. E isso dá-lhe muito prazer! Você gosta tanto de o fazer que o faria em qualquer lugar, e está sempre à espera de uma oportunidade para o fazer. Porque da ponta dessa coisa redonda, comprida e com a ponta vermelha, sai outra coisa, que entra pela sua boca, e esse entrar e sair sabe-lhe muito bem e deixa-o muito satisfeito!...”
Este seria o texto que eu sugeriria se me fosse pedido para participar numa campanha anti-tabaco. Porque defendo que uma campanha para ter efeitos nas pessoas alvo a quem é dirigida deve tocar em aspectos que os afecte de forma subliminar e não directamente.
Senão vejamos, a campanha onde é usada a expressão “fumar mata” é excessivamente explícita, e por isso não provoca o efeito desejado. Realmente “fumar mata”, mas conduzir mata muito mais, até trabalhar mata mais que fumar!
Agora, se sempre que uma pessoa acendesse um cigarro, estivesse presente a ideia, nessa pessoa ou nas pessoas próximas dela, que aquele acto se assemelha muito do acto sexual oral masculino – felação – e este acto se pratica com muito pudor, e na maior parte das vezes mais para obter segundas recompensas do que propriamente por prazer, provavelmente tal pessoa pensaria melhor antes de acender o cigarro.
Por um lado provocaria um efeito social. E não há efeito mais eficaz que o provocado socialmente. Os outros olharem, comentarem, ou imaginarem que o fumador faz o mesmo que faz o praticante de sexo oral masculino… E quantas provocações ou graças não se poderiam criar a partir daqui, sabendo que a brincar se vão dizendo coisas sérias, criando reacções nas pessoas alvo da graça, e atenuando a provocação directa.
Por outro lado provocaria um efeito psicológico. O próprio fumador ao fazer o mesmo emparelhamento de ideias, reagiria de acordo com as suas concepções mentais sobre os dois actos. E só quem realmente gostasse de praticar sexo oral em homens não colocaria aqui qualquer obstáculo.
Registe-se que não há aqui qualquer condenação pessoal aos fumadores. Estes estão inclusive a ser vitimas de discriminação - de alguma forma semelhantes a muitas outras camadas sociais – por lhes serem retirados direitos adquiridos, pois podiam fumar em qualquer lugar e deixaram de poder. Mas terão que ser os próprios a defender os seus interesses.
Registe-se também não haver aqui condenação para aqueles – ou aquelas – que gostam de praticar sexo oral – principalmente aquelas… - inclusive já tive um autocolante no vidro do carro a dizer “sorria, é a segunda melhor coisa que pode fazer com os seus lábios”.
Sá Lopes
5 de Abril de 2006
quinta-feira, março 30, 2006
Queremos nascer políticos!
artigo-opinião
Queremos nascer políticos!
Sá Lopes
30 de Março de 2006
quarta-feira, março 15, 2006
O Homem como ser Psicológico
(Artigo Recuperado)
O Homem como ser Psicológico
O Homem – homem como ser individual com personalidade própria e/ou Homem como conjunto de todas as sociedades e civilizações desde os tempos mais primitivos até aos nossos dias – nasce, cresce, vive e morre como todos os outros seres vivos animais. Como animal que também é, pertencente à classe dos mamíferos, a espécie humana diferenciou-se dos outros animais devido a um maior crescimento natural do seu cérebro e a um desenvolvimento da fala que permitiu a criação de ideias, tornando-se o ser por excelência do planeta Terra.
A aplicação de ideias na prática fez com que o homem criasse artefactos que deram azo ao surgimento de novas ideias, que por sua vez serviram para a criação de novas técnicas e assim sucessivamente até aos nossos dias, onde somos confrontados com elevada tecnologia desde a física quântica e nuclear, passando pela informática e electrónica até microbiologia e genética e... sabe-se lá para onde caminharemos!...
A par desta evolução tecnológica, o homem presenciou outras evoluções na sua história: evolução política, económica, cultural e artística, religiosa e filosófica, e psicológica. Com grandes crises, muitos altos e baixos, mas sempre com tendência crescente... E até onde!? Terá o homem limites?... Certamente que sim!... Não terá o homem atingido os limites nesta perplexa evolução, sempre que alguém morre por causa não natural?
Nas diferentes evoluções acima citadas não teremos já atingido os limites em algumas delas? Tecnologicamente certamente que não – todos os dias se fazem novas descobertas. Economicamente não há limites. O valor do dinheiro é psicológico. Pode-se evoluir sempre aumentando os valores ou dando novos nomes ao dinheiro. Cultural e artisticamente não haverá limites porque são os limites da imaginação, e basta mudar uma frase num texto para um livro ser diferente, apesar da mesma ideia. Note-se que existe “Madame Butterfly” ópera, música, teatro, filme, e livro – e pode-se perguntar até que ponto é criação ou repetição/estar nos limites. Politicamente já se testaram todos os sistemas, e a democracia republicana, que parece ser o melhor neste momento, não o foi já na antiga Grécia? Religiosa e filosoficamente já todas as fórmulas e teorias foram testadas, e não passaram disso. É que neste campo, há duas saídas, ouse vive feliz na ignorância, ou por mais que se procure, por mais que se estude, o que se vai encontrar é o nada, o absurdo, ou a loucura.
O homem é física e psicologicamente limitado. Não se pode ultrapassar a ele próprio. Reparemos que após milhares de anos de evolução, o homem continua a ter as mesmas necessidades básicas para sobreviver, como respirar, alimentar-se, etc., como tinha antes de ter descoberto o silex.
Psicologicamente o homem é como um computador. Nasce com um corpo físico e com uma memória limpa. Aos poucos vão-se introduzindo dados e programas na memória – dados: pai, mãe, rua, castigo, casa/ programas: se sair para a rua pai castiga. Educação familiar, catequese, escola, amigos, rua, televisão, cursos completos, empregos, casamentos, filhos, doenças acidentes, reforma... e a memória começa-se a perder por atingir a validade. Não atingiu os limites. Mas, se durante a vida acontecerem grandes desgostos emocionais, de amor ou perdas de entes queridos, grandes contratempos e desgraças, não se consegue o curso ou emprego que se deseja, e continua-se a tentar e começa-se a perguntar porquê? Introduzem-se dados e mais dados na memória para tentar saber porquê. E nunca surge a resposta e continua-se a tentar... até que, a memória se acaba. Para entrarem umas coisas apagam-se outras, baralha-se tudo, não se sabe o que se sabe e o que não se sabe e atinge-se a loucura.
Porque o cérebro humano onde é armazenada a memória consciente e inconsciente tem limites. Exceptuando os acidentes cerebrais que afectam a memória, não raro se conhecem pessoas que ficaram esquizofrénicas ou com outras doenças mentais devido a estudos excessivos. E as crianças sobredotadas, que futuro se lhes reserva?!
A evolução humana só foi possível porque foram muitos cérebros a pensar ao longo de milénios. Cada um deu potencialmente uma minúscula contribuição. Imaginemos que necessitamos da fórmula BDH e cada cérebro só comporta três letras. O primeiro comporta ABC, o segundo comporta DEF e o terceiro GHI. Um quarto cérebro pode aprender dos outros três as letras BDH, sem os quais nunca lá chegaria. No entanto este quarto cérebro nunca saberá as outras letras. Quantas coisas não se terão já perdido no tempo? E, no entanto, sendo o alfabeto limitado, não teremos já atingido tudo em certos campos?
Um homem só nunca poderá saber tudo, é impossível, por isso deve seleccionar o que deseja saber, e deve tentar saber só o que lhe é mais importante, o que mais lhe interessa, mais lhe convém, mais lhe é agradavelmente bom e o que é mais humanamente tolerável e moralmente correcto.
Diz-se muitas vezes que a história se repete. Mas os homens não, os homens são sempre outros ainda que vivam a mesma história, e afinal o que importa é viver. Cada homem é uma vida. E a diversidade é a coisa mais bela. A diversidade de ideias, de culturas, impérios, raças, civilizações, filosofias, religiões, a diversidade de homens... de toda a história passada, da actualidade presente e do imprevisível futuro, porque, como já dizia o Filósofo Sydney Harrys “nenhuma forma de vida é por si só totalmente boa, a combinação é todo. A vida é a arte de misturar ingredientes em proporções toleráveis.”
Seria bom se soubéssemos isto.
Sá Lopes
(Ano de 1998)
Portugal — Sua História e Lugar no Mundo
(Artigo recuperado)
Portugal — Sua História e Lugar no Mundo
Descendentes de vários povos antigos — celtas e iberos — e das influências de outros povos de outras regiões através das invasões — fenícios, gregos, romanos, bárbaros e árabes — Portugal nasce, tornando-se independente do reino de Leão e forma-se através da reconquista dos cristãos aos árabes, criando as fronteiras com que hoje se limita após 850 anos de história, sendo o país geograficamente mais antigamente demarcado.
A sua boa localização geográfica, a antiguidade do seu povo e as influências de conhecimentos de outros povos, fazem com que os lusitanos se lancem na descoberta de outras regiões pela curiosidade e, mais tarde, pelo comércio.
Iniciada pela mais famosa escola de navegação, fundada por D. Henrique, a conquista e descoberta de outras terras iniciou-se pelo Norte de África, seguindo-se Açores e Madeira e toda a costa africana, chegando onde nenhum outro povo havia chegado, ao Cabo da Boa Esperança e de seguida ao caminho marítimo para a Índia. A par de Portugal, outros povos europeus viajaram para ocidente, descobrindo a América, nomeadamente a Espanha, com a qual Portugal, no auge do seu império, divide todo o Mundo.
O movimento dos portugueses por todo o Mundo visava a colonização de uma raça considerada superior, a evangelização do cristianismo e o comércio de bens como especiarias, ouro, seda, etc. Com todo este comércio, os reis portugueses fazem de Portugal um dos países mais ricos e com vasto império colonial.
Esse império é ambicionado por outros países. Por crises internas, Portugal é afectado por guerras. E é ocupado por Espanha, durante seis décadas. Restaurada a independência, Portugal continua a explorar o seu império, agora mais voltado para o ocidente. Do Brasil chegam grandes riquezas e o poder português coopera com outras potências europeias. São assinados tratados comerciais de importação e exportação de bens, em que Portugal se destaca com o vinho do Porto.
Portugal começa a perder o império. É devastado com as invasões francesas. Dá-se o terramoto de Lisboa. A família real portuguesa foge para o Brasil. Há divisão de poderes e o Brasil toma-se independente da metrópole.
Consequência da revolução industrial, com o progresso tecnológico, e da revolução francesa, com o progresso cultural e social, Portugal perde poder relativamente aos países europeus. Dá-se a partilha de Africa. Portugal torna-se um país republicano e entra na Primeira Guerra Mundial. O regime absolutista português impera e tenta manter o antigo império colonial enquanto que todos os outros países europeus dão independência às suas colónias. Não participando na Segunda Guerra Mundial, Portugal vê-se, no entanto, forçado a guerras coloniais por todos os países que desejam a independência.
Dá-se a revolução da liberdade no 25 de Abril e Portugal entrega e abandona todas as antigas colónias a si próprias, ficando só com os Açores e a Madeira que acabam por se tornar regiões autónomas.
Actualmente, Portugal é um país de pouco poder económico, compensado em parte pela adesão à Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia, social e cultural, com tendência a homogeneização a todos os níveis.
Portugal, sendo actualmente um país democrático e livre, civilizado e moderno, pactua com todos os países em tratados internacionais de interesses mútuos. E destacado pelos outros pelas referências à sua gloriosa história, que deixou marcas por todos os cantos do Mundo, desde Timor e Índia, pela Africa, até à América, e todos os emigrantes em todos os países dignificando a nossa cultura, a oitava língua mais falada, os nossos feitos, os nossos descobridores, os nossos artistas e poetas, os nossos povos trabalhadores, o nosso futebol, o nosso folclore e o nosso fado.
Sá Lopes
(Ano de 1996)
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Desenvolvimento do Software Humano
Artigo
Desenvolvimento do Software Humano
A Organização Mundial de Saúde acaba de anunciar que dentro de 10 anos a Depressão será a principal causa de invalidez humana. A corroborar essa previsão, em Portugal, o consumo de medicamentos anti-depressivos aumentou 50% em 5 anos.
Esta notícia não podia ser mais conveniente, considerando que é publicada na mesma semana em que Bill Gates, o homem mais rico do mundo, visitou Portugal.
Embora parecendo inexistente, a relação entre os dois factos é grande e merece ser analisada.
Bill Gates criou o maior império económico mundial pelo seu trabalho focalizado nos programas para computadores. Investiu naquilo que pode ser considerado a “mente” ou a “alma” dos computadores. Os seus produtos não são físicos, são lógicos, matemáticos e imateriais. Todos os outros fabricantes de computadores, que investiram nos aparelhos, nas máquinas, nas peças, enfim, em todos os aspectos físicos do computador, nunca conseguirão alcançar a fortuna da Microsoft de Bill Gates.
Da mesma forma, todos nós – quase todos nós – investimos diariamente o nosso dinheiro com o nosso corpo. Nos ginásios, nos cabeleireiros, nos institutos de beleza, nos prontos-a-vestir, nos acessórios como jóias, telemóveis e automóveis. Somos inclusive levados as reduzir à alimentação saudável, ao descanso e ao convívio, entre outros, de forma a potencializar tal investimento.
Agimos como se preferíssemos ter um Ferrari e não soubéssemos ou pudéssemos conduzir em vez de preferirmos saber e poder conduzir e ter um automóvel de gama baixa.
Bill Gates disse, em Lisboa, que “o cérebro humano é um computador incrível”. Naturalmente referia-se ao seu funcionamento e não ao órgão físico. A mente humana é o programa que põe todo o organismo a funcionar, para o bem e para o mal. De que serve termos uma boa imagem, boa roupa e bons objectos, se não sabemos comportar-nos ou se não dominamos as nossas emoções e as nossas relações familiares, sociais e profissionais!? De que serve termos um computador topo de gama se ainda usamos o MS-DOS!?
Serve isto para dizer que se não alterarmos o nosso modo de funcionamento; se não começarmos a investir mais em termos um bom equilíbrio mental, emocional, afectivo, ou psicológico; se não renovamos o nosso sistema operativo, de forma a acompanhar o nosso corpo físico; se não pensarmos que, da mesma forma que procuramos um cabeleireiro para tratarmos o cabelo, ou um enfermeiro para tratarmos uma ferida, ou um médico para tratarmos um desequilíbrio orgânico, devemos procurar um psicólogo para tratar um desequilíbrio psicológico – porque são os psicólogos que melhor estão preparados para solucionar problemas ao nível do “software” humano… Se não alterarmos o nosso modo de ser e de estar perante estas realidades, dentro de 10 anos, segundo a OMS, poderemos fazer parte da lista dos indivíduos inválidos devido à depressão, ou a outras doenças de carácter psicológico.
3 de Fevereiro de 2006
Sá Lopes
terça-feira, janeiro 24, 2006
Ser Normal
artigo
Ser Normal
Se pedirmos a uma pessoa para distribuir vinte laranjas por outras vinte pessoas, o que vai acontecer?
Teoricamente imaginaríamos que essa pessoa distribuiria uma laranja por cada uma das vinte pessoas. Mas na prática não é isso o que acontece.
Na prática, o que vai acontecer é o resultado da atitude da pessoa que distribui as laranjas juntamente com as atitudes das pessoas que recebem as laranjas e com a interacção entre todas.
A pessoa que distribui as laranjas pode optar por dar uma laranja a cada uma das outras vinte, mas também pode dar as laranjas todas a uma só pessoa. Ou dar laranjas apenas às pessoas que têm mais necessidade ou às que gostam muito de laranjas. Ou pode ainda dar as laranjas a todas as pessoas e elas fazem a distribuição como quiserem.
Entre ficar cada pessoa com uma laranja, e ficar uma só pessoa com as vinte laranjas e as outras dezanove sem laranjas, pode acontecer um número muito elevado de possibilidades.
Agora imaginemos que em vez de termos uma só pessoa a distribuir laranjas temos mil pessoas. E vamos ver como foi o resultado das mil distribuições. Isto é, como foram distribuídas as vinte laranjas por vinte pessoas, mil vezes. Somamos os resultados e calculamos a média.
A pessoa normal seria aquela que fez exactamente esta distribuição. Aquela que isolada distribuiu as laranjas da mesma forma que a média das outras todas juntas. Mas essa pessoa pode não existir. Pode-se obter aquela média sem que nenhuma pessoa tivesse efectuado aquela distribuição. O que significa que, ainda que se saiba o que é uma pessoa normal, na prática, essa pessoa pode não existir.
Embora cientificamente estes cálculos pudessem ser bastante mais exigentes, é esta a ideia. Agora basta transpô-la para o nosso quotidiano. Nos negócios, nas relações, nas doenças, nas crenças, enfim, em tudo o que preenche a nossa vida.
Nós até podemos saber o que é uma pessoa normal. Difícil é encontrá-la.
Conclui-se assim que, em conjunto, podemos saber o que é ser normal, mas analisando cada pessoa individualmente, e reunindo todas as características que compõem o que é “ser-se pessoa”, é impossível encontrar alguém normal!
24 de Janeiro de 2006
Sá Lopes
Enriquecimento versus Empobrecimento
Enriquecimento versus Empobrecimento
Portugal é o país da União Europeia com maior amplitude entre ricos e pobres. É o país com maior desigualdade social, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
E isso acontece porque existe uma estrutura criada que conduz aqueles que, no interior dessa amplitude, não sendo ricos nem pobres, sejam levados a transferir o seu dinheiro para os mais ricos.
Senão vejamos. Se uma pessoa encontrar num parque de estacionamento estacionados a par um Mercedes recente e uma carrinha comercial antiga, quem julga ser o dono mais rico? Naturalmente o dono do Mercedes.
Mas isso pode não corresponder à verdade. Pois em Portugal vive-se de aparência, do fazer-de-conta. O dono do Mercedes, porque quer ser rico e conseguiu empréstimo para o adquirir, a partir daqui só vai empobrecer. O dono da carrinha, porque não gastou tanto dinheiro para a adquirir e porque a usa para trabalhar, a partir daqui só vai enriquecer.
Tudo aquilo que compramos, se não servir para produzir riqueza, só nos vai empobrecer.
Os ricos não compram. Os ricos vendem.
Os maiores ricos de Portugal são aqueles que vendem tudo, todos os dias, a todos os portugueses. E são poucos.
São os donos do grupo PT, que vendem os serviços e produtos do telefone fixo, vendem os serviços e produtos da TMN, vendem a TV cabo, vendem a internet Sapo, a Telepac, etc.
São os donos da EDP e da Galp, que vendem a electricidade, o gás, combustíveis, e muitos outros serviços menos conhecidos, como a Oni.
São os donos da Sonae, que vendem tudo nos centros comerciais e nos hipermercados Continente e Modelo, e na Worten, na Vobis, na Novis e na Optimus. O principal dono da Sonae foi considerado no último ano o 387º homem mais rico do mundo, e foi o único português entre os mil mais ricos, porque a PT, a EDP e a Galp ainda são alguma parte do estado, que não tem nenhum dono – ou somos todos nós.
São também os donos da Brisa, porque vendem muitas coisas relacionadas com as auto-estradas.
São ainda os donos do Grupo Amorim. E do Grupo Jerónimo Martins, que vende tudo no Feira Nova, Pingo Doce, Recheio, e até os gelados da Olá.
E são dos donos dos bancos, BCP e BPI – e ainda da CGD, mas esta é parcialmente do estado – que vendem dinheiro. Que todos compram – a preço de ouro – para comprar outras coisas que só servem para empobrecerem. Os empréstimos, os seguros, as poupanças, se não servirem para produzir riqueza só nos vão empobrecer.
Naturalmente todos conhecemos muitos outros ricos a vender em Portugal, mas estes são os principais e servem de exemplo. Uma breve análise à publicidade em Portugal demonstrará que quase todos os produtos e serviços publicitados pertencem a estes grupos económicos, que inclusive se encontram interligados entre si.
Sempre que alguém compra alguma coisa em Portugal, está a enriquecer algum destes donos dos monopólios portugueses.
Desde uma simples peça de fruta, até um lcd ou um automóvel, é para estes ricos que o dinheiro da classe média vai. Sim porque os que são mesmo pobres vivem da caridade ou compram só para satisfazer as necessidades elementares.
Mas há uma forte camada social, iludida no dinheiro e enriquecimento fácil, que sem se dar conta, compra cada vez mais aquilo que não necessita, mostrando um poder económico que não tem, sem perceber que com essa atitude está a favorecer o enriquecimento dos que já são ricos, e, simultaneamente, o auto-empobrecimento.
Porque tudo aquilo que compramos, se não servir para nos enriquecer – para trabalharmos, ganharmos tempo, dinheiro, ou saúde – só nos vai empobrecer.
7 de Janeiro de 2006
Sá Lopes
Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
artigo-ficção
Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
“Olá! O meu nome é Mike. Vivo num bairro no norte de Paris. Os meus pais vieram de outro país viver para a França. O país em que eles nasceram andava em guerra e tiveram que procurar que comer. Mas não foi fácil para eles. Estavam ilegais aqui. No princípio trabalharam em tudo o que aparecia. O meu pai foi para os estaleiros trabalhar com outro amigo. Mas o amigo dele teve um acidente e morreu. E o patrão disse que ele não trabalhava lá. Mais tarde os meus pais acabaram por se legalizar. Mas eu nunca tive um cartão com o meu nome. Depois nasceram os meus irmãos. O dinheiro dos meus pais nunca chegou para termos o que queríamos. Ainda andei numa escola, mas os professores não me ensinavam nada. Diziam que eu e os meus amigos nunca aprenderíamos a língua que se falava em França. E todos ficávamos ao canto da sala. Então desisti da escola. Em casa nunca disse nada porque o meu pai batia-me. Tentei procurar trabalho. Queria ganhar dinheiro para ter as mesmas coisas que os rapazes mais velhos tinham. Usar as mesmas roupas que eles, e não aquele roupa que a minha mãe trazia nem sei de onde. Saí de casa a pedir emprego em vários lados. Mas tinha que ser ilegal, porque ainda não tinha idade. Desisti. Quando andava na rua, todos olhavam para mim. Ou por ter uma cor diferente na pele, ou por estar mal vestido, não sei. Afastavam-se e nunca me davam emprego. Parece que tinham medo de mim. Por isso não podia sair do meu bairro. Os únicos com quem me sentia bem eram os meus amigos da rua. Eles é que me compreendiam. E também eles não se sentiam bem fora do bairro.
Mas à noite era diferente! Saíamos tarde, mas ninguém nos chateava. A cidade era toda nossa. Quase toda!... Andávamos pelas ruas e pelas praças sem problemas. Quando nos cruzávamos com outras pessoas alguém se afastava. Ou os outros ou nós. Tínhamos medo da polícia. Um dos nossos amigos já tinha sido ferido por um polícia. Tirando isso, a rua era nossa. E a noite também. Dormíamos de dia. E, claro, quando víamos coisas boas ao nosso alcance não ficavam lá. Também tínhamos direito a ter alguma coisa nossa. Nós não tínhamos culpa da nossa cor da pele ser diferente ou dos nossos pais não terem dinheiro. Também gostávamos de música, de equipamentos de luta e desporto, etc.
Mas uma noite as coisas correram mal. A polícia apanhou-nos a fazer o que não devíamos fazer e persegui-nos. Éramos muitos e fugimos todos. Cada um correu quanto pode e escondeu-se no primeiro buraco que encontrou. Dois dos meus melhores amigos conseguiram esconder-se no pior lugar possível. Não sei como conseguiram entrar lá. Não se deviam ter escondido naquele sítio, mas se conseguiram é porque não havia protecção. Era um posto de transformação de energia. Morreram os dois electrocutados. Queimados vivos!...
Eram os meus melhores amigos! Ficamos irritados e transtornados! Apetecia-nos fazer o mesmo aos polícias. Queimá-los também! Mas não conseguíamos. Ficamos com tanto ódio que se um carro deles se aproximasse éramos capazes de o destruir. Mas não o fazíamos porque eles estavam sempre armados e nós tínhamos que fugir. Até que um de nós não aguentou. Não aguentou o ódio que sentia. Pela perda dos amigos! Por tudo! E… Como não conseguia incendiar os polícias nem os carros deles, começou a lançar fogo a tudo o que aparecesse…
O resto da história todos sabem, porque os jornais e a televisão falaram disso por todo o mundo!...
Eu agora estou escondido. Pois se os polícias me apanham enviam-me a mim, e talvez a toda a minha família, para o país dos meus pais! Mas eu continuo a pensar que também tenho direito a viver num país rico, e livre, como é a França. Mike”
12 de Novembro de 2005
Sá Lopes
Não há Políticos Profissionais
artigo
Não há Políticos Profissionais
Os candidatos à presidência da república trouxeram à berlinda a questão de serem ou não políticos profissionais. E o tema tem sido alvo de amplo debate, quer pelos próprios quer pela comunicação social, e até já conferencistas se debruçaram sobre a questão.
Ser ou não ser político profissional é uma questão que pode ser abordada de dois ângulos. Por um lado pode-se considerar o “ser profissional” como aquela integração de qualidades que atribuem um nível de profissionalismo, competência e dedicação na execução de funções ou tarefas que conduzem ao sucesso de quem as detém. Mas por outro lado, pode ser abordada no sentido concreto daquilo que é uma profissão e de todas as características que a mesma contém, seja ela qual for.
Ao referir-se a esta questão, o candidato Mário Soares – primeiro utilizador da expressão nesta campanha – utilizou os conceitos de carreira, progressão, projectos futuros, etc. e a discussão desenvolveu-se em torno destes conceitos, pelo que se pode concluir que a abordagem ao tema acontece apoiada no segundo ângulo exposto.
Ora, neste sentido, encontramo-nos perante um erro conceptual. Pois não faz sentido utilizar a expressão “Político Profissional” porque não há políticos profissionais. Não existe a profissão de político. Não há uma carreira profissional na política. Não existem funções gerais nem específicas do político. Nem existe formação concreta para a prática da política. Assim como não existe a “Ordem dos Políticos” ou o “Sindicato dos Políticos”.
O exercício da política surge como um serviço livre à comunidade por parte de pessoas com as mais diversas profissões e formações – advogados, economistas, médicos, sociólogos, etc. – que só exercem essas funções porque se disponibilizam para tal e, por sua vez, os restantes membros da comunidade concordam e apoiam, vendo neles seus representantes. Naturalmente, como cessam as suas actividades normais, merecem receber uma compensação financeira, mas que não é uma remuneração normal. Não recebem por serem políticos, mas recebem por serem presidentes, ministros, governadores, administradores etc.
Os políticos não tiram o curso de política e depois empregam-se fazendo política, e gerem uma carreira na política. A política está para além desse conceito de profissão. Um político só integra longos percursos políticos quando demonstra qualidades superiores que lhe permitem alcançar tais lugares de liderança, mas sempre estando em concordância com aqueles que o apoiam, pois são os mesmos que atribuem tais cargos.
Esta constatação é tanto mais real quanto mais democrático e republicano for o regime. E mesmo nos regimes totalitários não faz sentido utilizar o conceito de “Políticos Profissionais”. Um líder imposto aos seus súbditos não é profissional por isso. Um príncipe que seja formado toda a sua vida com o objectivo de ser um bom rei e representar bem – politicamente – o seu país, não é um profissional. Tem um título e não uma profissão.
O exercício da política é um acto de liberdade. Deve ser efectuado com o máximo de profissionalismo e respeito pelos direitos humanos. Mas um político, enquanto actuante na política, não é, só por isso, um profissional. Pois não existem políticos profissionais.
10 de Dezembro de 2005
Sá Lopes
O Fim da Língua Portuguesa
O Fim da Língua Portuguesa
O Primeiro-Ministro, José Sócrates, em cumprimento de uma das suas promessas eleitorais – por ventura, uma das mais bem recebidas pela população – deu já início à implementação do ensino do Inglês no 1º Ciclo do Ensino Básico.
Embora ainda na sua fase inicial, fácil será prever que, em breve, todas as escolas do primeiro ciclo terão aulas de Inglês. Aliás, já escolas havia que se vangloriavam por ensinar esta língua estrangeira anteriormente à aplicação da medida do governo, como também, a mesma língua era ensinada mesmo no ensino pré-escolar, a meninos com menos de 6 anos.
Os próprios pais destes meninos ficam muito satisfeitos por verem os seus filhos dominarem uma língua exterior, mesmo quando, eles próprios, mal compreendem o Português.
Acrescente-se a isto um conjunto de outras realidades que apenas servem para aumentar, exponencialmente, o uso da língua inglesa, tais como o uso das novas tecnologias; a internet; os próprios manuais dos produtos adquiridos em Portugal, que contêm traduções incompreensíveis… Enfim, a globalização!...
As empresas, ainda que portuguesas, comunicam, entre si, em língua inglesa. Os congressos científicos realizados em Portugal utilizam o Inglês como língua oficial. Nas universidades, os professores indicam referências de obras em língua inglesa e aconselham os alunos a saberem Inglês para poderem concluir os estudos. As editoras não traduzem muitas obras de referência porque o mercado (por ser pequeno) não é compensador.As marcas, com origem em Portugal, vendem mais se forem “inglesas”, e as rádios só passam música inglesa, ainda que de bandas portuguesas (com nome inglês), porque, para os jovens, cantar “i love you and you love me too” é bonito, mas cantar “eu amo-te e tu também me amas” é “pimba”.
Muitas vezes se vêm os políticos e outros representantes de Portugal a falar em Inglês para estrangeiros, mas dificilmente se vêm estrangeiros a falar Português para portugueses.
Naturalmente que o mundo seria mais compreensível – e quiçá mais justo – se todos falássemos a mesma língua, pois as energias que se gastam a aprender, traduzir e ensinar outras línguas poderiam ser encaminhadas para objectivos mais benéficos para o ser humano.
Mas a história e a natureza do ser humano são o que são, e a sua diversidade é uma das suas maiores riquezas. Se um dia vai haver uma linguagem universal, quem viver verá! A história humana é imprevisível, ainda que o Inglês aparente seguir esse rumo.
Uma coisa é certa, por ser mais pobre, a língua inglesa é muito mais fácil de aprender do que a portuguesa. É muito mais fácil falar e escrever, sem erros, em Inglês do que em Português. O que significa que, é necessário mais esforço para aprender Português do que para aprender Inglês. E o ser humano, por natureza, procura o caminho mais fácil. O que implica um maior investimento no mais difícil.
É exactamente o que o governo não está a fazer.
Portugal quase já perdeu a sua autonomia política e económica. Neste caminho, será dos primeiros a perder a sua histórica linguagem. Já há países – ex-colónias – que trocaram a língua oficial de Português para Inglês. Resta-nos o grande Brasil, que mantém esta língua, mas, na sua versão, vai passar a ser – como em muitos locais já é – brasileiro.
É bom ser português e viajar pelo mundo inteiro sem problemas porque se sabe falar Inglês. Mas quando Portugal deixar de falar Português, quem vai ser o português por esse mundo fora?!
A nossa língua é o que nos resta da nossa identidade! Será que a queremos enobrecer? Ou será a primeira das grandes línguas a morrer em nome da globalização?
As crianças que hoje iniciam a aprendizagem do Inglês vão utilizar apenas esta língua no seu futuro profissional, daqui a 20 ou 30 anos. E nesse tempo, vão ser inúteis manifestações de minorias radicais em prol de uma língua, que em breve, fará parte – apenas – da história da humanidade.
19 de Outubro de 2005
Sá Lopes