artigo-opinião
Queremos nascer políticos!
Sá Lopes
30 de Março de 2006
Artigos Pessoais
artigo-opinião
Queremos nascer políticos!
Sá Lopes
30 de Março de 2006
(Artigo Recuperado)
O Homem como ser Psicológico
O Homem – homem como ser individual com personalidade própria e/ou Homem como conjunto de todas as sociedades e civilizações desde os tempos mais primitivos até aos nossos dias – nasce, cresce, vive e morre como todos os outros seres vivos animais. Como animal que também é, pertencente à classe dos mamíferos, a espécie humana diferenciou-se dos outros animais devido a um maior crescimento natural do seu cérebro e a um desenvolvimento da fala que permitiu a criação de ideias, tornando-se o ser por excelência do planeta Terra.
A aplicação de ideias na prática fez com que o homem criasse artefactos que deram azo ao surgimento de novas ideias, que por sua vez serviram para a criação de novas técnicas e assim sucessivamente até aos nossos dias, onde somos confrontados com elevada tecnologia desde a física quântica e nuclear, passando pela informática e electrónica até microbiologia e genética e... sabe-se lá para onde caminharemos!...
A par desta evolução tecnológica, o homem presenciou outras evoluções na sua história: evolução política, económica, cultural e artística, religiosa e filosófica, e psicológica. Com grandes crises, muitos altos e baixos, mas sempre com tendência crescente... E até onde!? Terá o homem limites?... Certamente que sim!... Não terá o homem atingido os limites nesta perplexa evolução, sempre que alguém morre por causa não natural?
Nas diferentes evoluções acima citadas não teremos já atingido os limites em algumas delas? Tecnologicamente certamente que não – todos os dias se fazem novas descobertas. Economicamente não há limites. O valor do dinheiro é psicológico. Pode-se evoluir sempre aumentando os valores ou dando novos nomes ao dinheiro. Cultural e artisticamente não haverá limites porque são os limites da imaginação, e basta mudar uma frase num texto para um livro ser diferente, apesar da mesma ideia. Note-se que existe “Madame Butterfly” ópera, música, teatro, filme, e livro – e pode-se perguntar até que ponto é criação ou repetição/estar nos limites. Politicamente já se testaram todos os sistemas, e a democracia republicana, que parece ser o melhor neste momento, não o foi já na antiga Grécia? Religiosa e filosoficamente já todas as fórmulas e teorias foram testadas, e não passaram disso. É que neste campo, há duas saídas, ouse vive feliz na ignorância, ou por mais que se procure, por mais que se estude, o que se vai encontrar é o nada, o absurdo, ou a loucura.
O homem é física e psicologicamente limitado. Não se pode ultrapassar a ele próprio. Reparemos que após milhares de anos de evolução, o homem continua a ter as mesmas necessidades básicas para sobreviver, como respirar, alimentar-se, etc., como tinha antes de ter descoberto o silex.
Psicologicamente o homem é como um computador. Nasce com um corpo físico e com uma memória limpa. Aos poucos vão-se introduzindo dados e programas na memória – dados: pai, mãe, rua, castigo, casa/ programas: se sair para a rua pai castiga. Educação familiar, catequese, escola, amigos, rua, televisão, cursos completos, empregos, casamentos, filhos, doenças acidentes, reforma... e a memória começa-se a perder por atingir a validade. Não atingiu os limites. Mas, se durante a vida acontecerem grandes desgostos emocionais, de amor ou perdas de entes queridos, grandes contratempos e desgraças, não se consegue o curso ou emprego que se deseja, e continua-se a tentar e começa-se a perguntar porquê? Introduzem-se dados e mais dados na memória para tentar saber porquê. E nunca surge a resposta e continua-se a tentar... até que, a memória se acaba. Para entrarem umas coisas apagam-se outras, baralha-se tudo, não se sabe o que se sabe e o que não se sabe e atinge-se a loucura.
Porque o cérebro humano onde é armazenada a memória consciente e inconsciente tem limites. Exceptuando os acidentes cerebrais que afectam a memória, não raro se conhecem pessoas que ficaram esquizofrénicas ou com outras doenças mentais devido a estudos excessivos. E as crianças sobredotadas, que futuro se lhes reserva?!
A evolução humana só foi possível porque foram muitos cérebros a pensar ao longo de milénios. Cada um deu potencialmente uma minúscula contribuição. Imaginemos que necessitamos da fórmula BDH e cada cérebro só comporta três letras. O primeiro comporta ABC, o segundo comporta DEF e o terceiro GHI. Um quarto cérebro pode aprender dos outros três as letras BDH, sem os quais nunca lá chegaria. No entanto este quarto cérebro nunca saberá as outras letras. Quantas coisas não se terão já perdido no tempo? E, no entanto, sendo o alfabeto limitado, não teremos já atingido tudo em certos campos?
Um homem só nunca poderá saber tudo, é impossível, por isso deve seleccionar o que deseja saber, e deve tentar saber só o que lhe é mais importante, o que mais lhe interessa, mais lhe convém, mais lhe é agradavelmente bom e o que é mais humanamente tolerável e moralmente correcto.
Diz-se muitas vezes que a história se repete. Mas os homens não, os homens são sempre outros ainda que vivam a mesma história, e afinal o que importa é viver. Cada homem é uma vida. E a diversidade é a coisa mais bela. A diversidade de ideias, de culturas, impérios, raças, civilizações, filosofias, religiões, a diversidade de homens... de toda a história passada, da actualidade presente e do imprevisível futuro, porque, como já dizia o Filósofo Sydney Harrys “nenhuma forma de vida é por si só totalmente boa, a combinação é todo. A vida é a arte de misturar ingredientes em proporções toleráveis.”
Seria bom se soubéssemos isto.
Sá Lopes
(Ano de 1998)
(Artigo recuperado)
Portugal — Sua História e Lugar no Mundo
Descendentes de vários povos antigos — celtas e iberos — e das influências de outros povos de outras regiões através das invasões — fenícios, gregos, romanos, bárbaros e árabes — Portugal nasce, tornando-se independente do reino de Leão e forma-se através da reconquista dos cristãos aos árabes, criando as fronteiras com que hoje se limita após 850 anos de história, sendo o país geograficamente mais antigamente demarcado.
A sua boa localização geográfica, a antiguidade do seu povo e as influências de conhecimentos de outros povos, fazem com que os lusitanos se lancem na descoberta de outras regiões pela curiosidade e, mais tarde, pelo comércio.
Iniciada pela mais famosa escola de navegação, fundada por D. Henrique, a conquista e descoberta de outras terras iniciou-se pelo Norte de África, seguindo-se Açores e Madeira e toda a costa africana, chegando onde nenhum outro povo havia chegado, ao Cabo da Boa Esperança e de seguida ao caminho marítimo para a Índia. A par de Portugal, outros povos europeus viajaram para ocidente, descobrindo a América, nomeadamente a Espanha, com a qual Portugal, no auge do seu império, divide todo o Mundo.
O movimento dos portugueses por todo o Mundo visava a colonização de uma raça considerada superior, a evangelização do cristianismo e o comércio de bens como especiarias, ouro, seda, etc. Com todo este comércio, os reis portugueses fazem de Portugal um dos países mais ricos e com vasto império colonial.
Esse império é ambicionado por outros países. Por crises internas, Portugal é afectado por guerras. E é ocupado por Espanha, durante seis décadas. Restaurada a independência, Portugal continua a explorar o seu império, agora mais voltado para o ocidente. Do Brasil chegam grandes riquezas e o poder português coopera com outras potências europeias. São assinados tratados comerciais de importação e exportação de bens, em que Portugal se destaca com o vinho do Porto.
Portugal começa a perder o império. É devastado com as invasões francesas. Dá-se o terramoto de Lisboa. A família real portuguesa foge para o Brasil. Há divisão de poderes e o Brasil toma-se independente da metrópole.
Consequência da revolução industrial, com o progresso tecnológico, e da revolução francesa, com o progresso cultural e social, Portugal perde poder relativamente aos países europeus. Dá-se a partilha de Africa. Portugal torna-se um país republicano e entra na Primeira Guerra Mundial. O regime absolutista português impera e tenta manter o antigo império colonial enquanto que todos os outros países europeus dão independência às suas colónias. Não participando na Segunda Guerra Mundial, Portugal vê-se, no entanto, forçado a guerras coloniais por todos os países que desejam a independência.
Dá-se a revolução da liberdade no 25 de Abril e Portugal entrega e abandona todas as antigas colónias a si próprias, ficando só com os Açores e a Madeira que acabam por se tornar regiões autónomas.
Actualmente, Portugal é um país de pouco poder económico, compensado em parte pela adesão à Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia, social e cultural, com tendência a homogeneização a todos os níveis.
Portugal, sendo actualmente um país democrático e livre, civilizado e moderno, pactua com todos os países em tratados internacionais de interesses mútuos. E destacado pelos outros pelas referências à sua gloriosa história, que deixou marcas por todos os cantos do Mundo, desde Timor e Índia, pela Africa, até à América, e todos os emigrantes em todos os países dignificando a nossa cultura, a oitava língua mais falada, os nossos feitos, os nossos descobridores, os nossos artistas e poetas, os nossos povos trabalhadores, o nosso futebol, o nosso folclore e o nosso fado.
Sá Lopes
(Ano de 1996)
Artigo
Desenvolvimento do Software Humano
A Organização Mundial de Saúde acaba de anunciar que dentro de 10 anos a Depressão será a principal causa de invalidez humana. A corroborar essa previsão, em Portugal, o consumo de medicamentos anti-depressivos aumentou 50% em 5 anos.
Esta notícia não podia ser mais conveniente, considerando que é publicada na mesma semana em que Bill Gates, o homem mais rico do mundo, visitou Portugal.
Embora parecendo inexistente, a relação entre os dois factos é grande e merece ser analisada.
Bill Gates criou o maior império económico mundial pelo seu trabalho focalizado nos programas para computadores. Investiu naquilo que pode ser considerado a “mente” ou a “alma” dos computadores. Os seus produtos não são físicos, são lógicos, matemáticos e imateriais. Todos os outros fabricantes de computadores, que investiram nos aparelhos, nas máquinas, nas peças, enfim, em todos os aspectos físicos do computador, nunca conseguirão alcançar a fortuna da Microsoft de Bill Gates.
Da mesma forma, todos nós – quase todos nós – investimos diariamente o nosso dinheiro com o nosso corpo. Nos ginásios, nos cabeleireiros, nos institutos de beleza, nos prontos-a-vestir, nos acessórios como jóias, telemóveis e automóveis. Somos inclusive levados as reduzir à alimentação saudável, ao descanso e ao convívio, entre outros, de forma a potencializar tal investimento.
Agimos como se preferíssemos ter um Ferrari e não soubéssemos ou pudéssemos conduzir em vez de preferirmos saber e poder conduzir e ter um automóvel de gama baixa.
Bill Gates disse, em Lisboa, que “o cérebro humano é um computador incrível”. Naturalmente referia-se ao seu funcionamento e não ao órgão físico. A mente humana é o programa que põe todo o organismo a funcionar, para o bem e para o mal. De que serve termos uma boa imagem, boa roupa e bons objectos, se não sabemos comportar-nos ou se não dominamos as nossas emoções e as nossas relações familiares, sociais e profissionais!? De que serve termos um computador topo de gama se ainda usamos o MS-DOS!?
Serve isto para dizer que se não alterarmos o nosso modo de funcionamento; se não começarmos a investir mais em termos um bom equilíbrio mental, emocional, afectivo, ou psicológico; se não renovamos o nosso sistema operativo, de forma a acompanhar o nosso corpo físico; se não pensarmos que, da mesma forma que procuramos um cabeleireiro para tratarmos o cabelo, ou um enfermeiro para tratarmos uma ferida, ou um médico para tratarmos um desequilíbrio orgânico, devemos procurar um psicólogo para tratar um desequilíbrio psicológico – porque são os psicólogos que melhor estão preparados para solucionar problemas ao nível do “software” humano… Se não alterarmos o nosso modo de ser e de estar perante estas realidades, dentro de 10 anos, segundo a OMS, poderemos fazer parte da lista dos indivíduos inválidos devido à depressão, ou a outras doenças de carácter psicológico.
3 de Fevereiro de 2006
Sá Lopes
artigo
Ser Normal
Se pedirmos a uma pessoa para distribuir vinte laranjas por outras vinte pessoas, o que vai acontecer?
Teoricamente imaginaríamos que essa pessoa distribuiria uma laranja por cada uma das vinte pessoas. Mas na prática não é isso o que acontece.
Na prática, o que vai acontecer é o resultado da atitude da pessoa que distribui as laranjas juntamente com as atitudes das pessoas que recebem as laranjas e com a interacção entre todas.
A pessoa que distribui as laranjas pode optar por dar uma laranja a cada uma das outras vinte, mas também pode dar as laranjas todas a uma só pessoa. Ou dar laranjas apenas às pessoas que têm mais necessidade ou às que gostam muito de laranjas. Ou pode ainda dar as laranjas a todas as pessoas e elas fazem a distribuição como quiserem.
Entre ficar cada pessoa com uma laranja, e ficar uma só pessoa com as vinte laranjas e as outras dezanove sem laranjas, pode acontecer um número muito elevado de possibilidades.
Agora imaginemos que em vez de termos uma só pessoa a distribuir laranjas temos mil pessoas. E vamos ver como foi o resultado das mil distribuições. Isto é, como foram distribuídas as vinte laranjas por vinte pessoas, mil vezes. Somamos os resultados e calculamos a média.
A pessoa normal seria aquela que fez exactamente esta distribuição. Aquela que isolada distribuiu as laranjas da mesma forma que a média das outras todas juntas. Mas essa pessoa pode não existir. Pode-se obter aquela média sem que nenhuma pessoa tivesse efectuado aquela distribuição. O que significa que, ainda que se saiba o que é uma pessoa normal, na prática, essa pessoa pode não existir.
Embora cientificamente estes cálculos pudessem ser bastante mais exigentes, é esta a ideia. Agora basta transpô-la para o nosso quotidiano. Nos negócios, nas relações, nas doenças, nas crenças, enfim, em tudo o que preenche a nossa vida.
Nós até podemos saber o que é uma pessoa normal. Difícil é encontrá-la.
Conclui-se assim que, em conjunto, podemos saber o que é ser normal, mas analisando cada pessoa individualmente, e reunindo todas as características que compõem o que é “ser-se pessoa”, é impossível encontrar alguém normal!
24 de Janeiro de 2006
Sá Lopes
7 de Janeiro de 2006
Sá Lopes
artigo-ficção
Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
“Olá! O meu nome é Mike. Vivo num bairro no norte de Paris. Os meus pais vieram de outro país viver para a França. O país em que eles nasceram andava em guerra e tiveram que procurar que comer. Mas não foi fácil para eles. Estavam ilegais aqui. No princípio trabalharam em tudo o que aparecia. O meu pai foi para os estaleiros trabalhar com outro amigo. Mas o amigo dele teve um acidente e morreu. E o patrão disse que ele não trabalhava lá. Mais tarde os meus pais acabaram por se legalizar. Mas eu nunca tive um cartão com o meu nome. Depois nasceram os meus irmãos. O dinheiro dos meus pais nunca chegou para termos o que queríamos. Ainda andei numa escola, mas os professores não me ensinavam nada. Diziam que eu e os meus amigos nunca aprenderíamos a língua que se falava em França. E todos ficávamos ao canto da sala. Então desisti da escola. Em casa nunca disse nada porque o meu pai batia-me. Tentei procurar trabalho. Queria ganhar dinheiro para ter as mesmas coisas que os rapazes mais velhos tinham. Usar as mesmas roupas que eles, e não aquele roupa que a minha mãe trazia nem sei de onde. Saí de casa a pedir emprego em vários lados. Mas tinha que ser ilegal, porque ainda não tinha idade. Desisti. Quando andava na rua, todos olhavam para mim. Ou por ter uma cor diferente na pele, ou por estar mal vestido, não sei. Afastavam-se e nunca me davam emprego. Parece que tinham medo de mim. Por isso não podia sair do meu bairro. Os únicos com quem me sentia bem eram os meus amigos da rua. Eles é que me compreendiam. E também eles não se sentiam bem fora do bairro.
Mas à noite era diferente! Saíamos tarde, mas ninguém nos chateava. A cidade era toda nossa. Quase toda!... Andávamos pelas ruas e pelas praças sem problemas. Quando nos cruzávamos com outras pessoas alguém se afastava. Ou os outros ou nós. Tínhamos medo da polícia. Um dos nossos amigos já tinha sido ferido por um polícia. Tirando isso, a rua era nossa. E a noite também. Dormíamos de dia. E, claro, quando víamos coisas boas ao nosso alcance não ficavam lá. Também tínhamos direito a ter alguma coisa nossa. Nós não tínhamos culpa da nossa cor da pele ser diferente ou dos nossos pais não terem dinheiro. Também gostávamos de música, de equipamentos de luta e desporto, etc.
Mas uma noite as coisas correram mal. A polícia apanhou-nos a fazer o que não devíamos fazer e persegui-nos. Éramos muitos e fugimos todos. Cada um correu quanto pode e escondeu-se no primeiro buraco que encontrou. Dois dos meus melhores amigos conseguiram esconder-se no pior lugar possível. Não sei como conseguiram entrar lá. Não se deviam ter escondido naquele sítio, mas se conseguiram é porque não havia protecção. Era um posto de transformação de energia. Morreram os dois electrocutados. Queimados vivos!...
Eram os meus melhores amigos! Ficamos irritados e transtornados! Apetecia-nos fazer o mesmo aos polícias. Queimá-los também! Mas não conseguíamos. Ficamos com tanto ódio que se um carro deles se aproximasse éramos capazes de o destruir. Mas não o fazíamos porque eles estavam sempre armados e nós tínhamos que fugir. Até que um de nós não aguentou. Não aguentou o ódio que sentia. Pela perda dos amigos! Por tudo! E… Como não conseguia incendiar os polícias nem os carros deles, começou a lançar fogo a tudo o que aparecesse…
O resto da história todos sabem, porque os jornais e a televisão falaram disso por todo o mundo!...
Eu agora estou escondido. Pois se os polícias me apanham enviam-me a mim, e talvez a toda a minha família, para o país dos meus pais! Mas eu continuo a pensar que também tenho direito a viver num país rico, e livre, como é a França. Mike”
12 de Novembro de 2005
Sá Lopes
artigo
Não há Políticos Profissionais
Os candidatos à presidência da república trouxeram à berlinda a questão de serem ou não políticos profissionais. E o tema tem sido alvo de amplo debate, quer pelos próprios quer pela comunicação social, e até já conferencistas se debruçaram sobre a questão.
Ser ou não ser político profissional é uma questão que pode ser abordada de dois ângulos. Por um lado pode-se considerar o “ser profissional” como aquela integração de qualidades que atribuem um nível de profissionalismo, competência e dedicação na execução de funções ou tarefas que conduzem ao sucesso de quem as detém. Mas por outro lado, pode ser abordada no sentido concreto daquilo que é uma profissão e de todas as características que a mesma contém, seja ela qual for.
Ao referir-se a esta questão, o candidato Mário Soares – primeiro utilizador da expressão nesta campanha – utilizou os conceitos de carreira, progressão, projectos futuros, etc. e a discussão desenvolveu-se em torno destes conceitos, pelo que se pode concluir que a abordagem ao tema acontece apoiada no segundo ângulo exposto.
Ora, neste sentido, encontramo-nos perante um erro conceptual. Pois não faz sentido utilizar a expressão “Político Profissional” porque não há políticos profissionais. Não existe a profissão de político. Não há uma carreira profissional na política. Não existem funções gerais nem específicas do político. Nem existe formação concreta para a prática da política. Assim como não existe a “Ordem dos Políticos” ou o “Sindicato dos Políticos”.
O exercício da política surge como um serviço livre à comunidade por parte de pessoas com as mais diversas profissões e formações – advogados, economistas, médicos, sociólogos, etc. – que só exercem essas funções porque se disponibilizam para tal e, por sua vez, os restantes membros da comunidade concordam e apoiam, vendo neles seus representantes. Naturalmente, como cessam as suas actividades normais, merecem receber uma compensação financeira, mas que não é uma remuneração normal. Não recebem por serem políticos, mas recebem por serem presidentes, ministros, governadores, administradores etc.
Os políticos não tiram o curso de política e depois empregam-se fazendo política, e gerem uma carreira na política. A política está para além desse conceito de profissão. Um político só integra longos percursos políticos quando demonstra qualidades superiores que lhe permitem alcançar tais lugares de liderança, mas sempre estando em concordância com aqueles que o apoiam, pois são os mesmos que atribuem tais cargos.
Esta constatação é tanto mais real quanto mais democrático e republicano for o regime. E mesmo nos regimes totalitários não faz sentido utilizar o conceito de “Políticos Profissionais”. Um líder imposto aos seus súbditos não é profissional por isso. Um príncipe que seja formado toda a sua vida com o objectivo de ser um bom rei e representar bem – politicamente – o seu país, não é um profissional. Tem um título e não uma profissão.
O exercício da política é um acto de liberdade. Deve ser efectuado com o máximo de profissionalismo e respeito pelos direitos humanos. Mas um político, enquanto actuante na política, não é, só por isso, um profissional. Pois não existem políticos profissionais.
10 de Dezembro de 2005
Sá Lopes
Os próprios pais destes meninos ficam muito satisfeitos por verem os seus filhos dominarem uma língua exterior, mesmo quando, eles próprios, mal compreendem o Português.
Acrescente-se a isto um conjunto de outras realidades que apenas servem para aumentar, exponencialmente, o uso da língua inglesa, tais como o uso das novas tecnologias; a internet; os próprios manuais dos produtos adquiridos em Portugal, que contêm traduções incompreensíveis… Enfim, a globalização!...
As empresas, ainda que portuguesas, comunicam, entre si, em língua inglesa. Os congressos científicos realizados em Portugal utilizam o Inglês como língua oficial. Nas universidades, os professores indicam referências de obras em língua inglesa e aconselham os alunos a saberem Inglês para poderem concluir os estudos. As editoras não traduzem muitas obras de referência porque o mercado (por ser pequeno) não é compensador.As marcas, com origem em Portugal, vendem mais se forem “inglesas”, e as rádios só passam música inglesa, ainda que de bandas portuguesas (com nome inglês), porque, para os jovens, cantar “i love you and you love me too” é bonito, mas cantar “eu amo-te e tu também me amas” é “pimba”.
Muitas vezes se vêm os políticos e outros representantes de Portugal a falar em Inglês para estrangeiros, mas dificilmente se vêm estrangeiros a falar Português para portugueses.
Naturalmente que o mundo seria mais compreensível – e quiçá mais justo – se todos falássemos a mesma língua, pois as energias que se gastam a aprender, traduzir e ensinar outras línguas poderiam ser encaminhadas para objectivos mais benéficos para o ser humano.
Mas a história e a natureza do ser humano são o que são, e a sua diversidade é uma das suas maiores riquezas. Se um dia vai haver uma linguagem universal, quem viver verá! A história humana é imprevisível, ainda que o Inglês aparente seguir esse rumo.
Uma coisa é certa, por ser mais pobre, a língua inglesa é muito mais fácil de aprender do que a portuguesa. É muito mais fácil falar e escrever, sem erros, em Inglês do que em Português. O que significa que, é necessário mais esforço para aprender Português do que para aprender Inglês. E o ser humano, por natureza, procura o caminho mais fácil. O que implica um maior investimento no mais difícil.
É exactamente o que o governo não está a fazer.
Portugal quase já perdeu a sua autonomia política e económica. Neste caminho, será dos primeiros a perder a sua histórica linguagem. Já há países – ex-colónias – que trocaram a língua oficial de Português para Inglês. Resta-nos o grande Brasil, que mantém esta língua, mas, na sua versão, vai passar a ser – como em muitos locais já é – brasileiro.
É bom ser português e viajar pelo mundo inteiro sem problemas porque se sabe falar Inglês. Mas quando Portugal deixar de falar Português, quem vai ser o português por esse mundo fora?!
A nossa língua é o que nos resta da nossa identidade! Será que a queremos enobrecer? Ou será a primeira das grandes línguas a morrer em nome da globalização?
As crianças que hoje iniciam a aprendizagem do Inglês vão utilizar apenas esta língua no seu futuro profissional, daqui a 20 ou 30 anos. E nesse tempo, vão ser inúteis manifestações de minorias radicais em prol de uma língua, que em breve, fará parte – apenas – da história da humanidade.
19 de Outubro de 2005
Sá Lopes