terça-feira, janeiro 24, 2006

Liberdade, Igualdade, Fraternidade!

artigo-ficção


Liberdade, Igualdade, Fraternidade!

“Olá! O meu nome é Mike. Vivo num bairro no norte de Paris. Os meus pais vieram de outro país viver para a França. O país em que eles nasceram andava em guerra e tiveram que procurar que comer. Mas não foi fácil para eles. Estavam ilegais aqui. No princípio trabalharam em tudo o que aparecia. O meu pai foi para os estaleiros trabalhar com outro amigo. Mas o amigo dele teve um acidente e morreu. E o patrão disse que ele não trabalhava lá. Mais tarde os meus pais acabaram por se legalizar. Mas eu nunca tive um cartão com o meu nome. Depois nasceram os meus irmãos. O dinheiro dos meus pais nunca chegou para termos o que queríamos. Ainda andei numa escola, mas os professores não me ensinavam nada. Diziam que eu e os meus amigos nunca aprenderíamos a língua que se falava em França. E todos ficávamos ao canto da sala. Então desisti da escola. Em casa nunca disse nada porque o meu pai batia-me. Tentei procurar trabalho. Queria ganhar dinheiro para ter as mesmas coisas que os rapazes mais velhos tinham. Usar as mesmas roupas que eles, e não aquele roupa que a minha mãe trazia nem sei de onde. Saí de casa a pedir emprego em vários lados. Mas tinha que ser ilegal, porque ainda não tinha idade. Desisti. Quando andava na rua, todos olhavam para mim. Ou por ter uma cor diferente na pele, ou por estar mal vestido, não sei. Afastavam-se e nunca me davam emprego. Parece que tinham medo de mim. Por isso não podia sair do meu bairro. Os únicos com quem me sentia bem eram os meus amigos da rua. Eles é que me compreendiam. E também eles não se sentiam bem fora do bairro.

Mas à noite era diferente! Saíamos tarde, mas ninguém nos chateava. A cidade era toda nossa. Quase toda!... Andávamos pelas ruas e pelas praças sem problemas. Quando nos cruzávamos com outras pessoas alguém se afastava. Ou os outros ou nós. Tínhamos medo da polícia. Um dos nossos amigos já tinha sido ferido por um polícia. Tirando isso, a rua era nossa. E a noite também. Dormíamos de dia. E, claro, quando víamos coisas boas ao nosso alcance não ficavam lá. Também tínhamos direito a ter alguma coisa nossa. Nós não tínhamos culpa da nossa cor da pele ser diferente ou dos nossos pais não terem dinheiro. Também gostávamos de música, de equipamentos de luta e desporto, etc.

Mas uma noite as coisas correram mal. A polícia apanhou-nos a fazer o que não devíamos fazer e persegui-nos. Éramos muitos e fugimos todos. Cada um correu quanto pode e escondeu-se no primeiro buraco que encontrou. Dois dos meus melhores amigos conseguiram esconder-se no pior lugar possível. Não sei como conseguiram entrar lá. Não se deviam ter escondido naquele sítio, mas se conseguiram é porque não havia protecção. Era um posto de transformação de energia. Morreram os dois electrocutados. Queimados vivos!...

Eram os meus melhores amigos! Ficamos irritados e transtornados! Apetecia-nos fazer o mesmo aos polícias. Queimá-los também! Mas não conseguíamos. Ficamos com tanto ódio que se um carro deles se aproximasse éramos capazes de o destruir. Mas não o fazíamos porque eles estavam sempre armados e nós tínhamos que fugir. Até que um de nós não aguentou. Não aguentou o ódio que sentia. Pela perda dos amigos! Por tudo! E… Como não conseguia incendiar os polícias nem os carros deles, começou a lançar fogo a tudo o que aparecesse…

O resto da história todos sabem, porque os jornais e a televisão falaram disso por todo o mundo!...

Eu agora estou escondido. Pois se os polícias me apanham enviam-me a mim, e talvez a toda a minha família, para o país dos meus pais! Mas eu continuo a pensar que também tenho direito a viver num país rico, e livre, como é a França. Mike”

12 de Novembro de 2005

Sá Lopes

Não há Políticos Profissionais

artigo


Não há Políticos Profissionais

Os candidatos à presidência da república trouxeram à berlinda a questão de serem ou não políticos profissionais. E o tema tem sido alvo de amplo debate, quer pelos próprios quer pela comunicação social, e até já conferencistas se debruçaram sobre a questão.

Ser ou não ser político profissional é uma questão que pode ser abordada de dois ângulos. Por um lado pode-se considerar o “ser profissional” como aquela integração de qualidades que atribuem um nível de profissionalismo, competência e dedicação na execução de funções ou tarefas que conduzem ao sucesso de quem as detém. Mas por outro lado, pode ser abordada no sentido concreto daquilo que é uma profissão e de todas as características que a mesma contém, seja ela qual for.

Ao referir-se a esta questão, o candidato Mário Soares – primeiro utilizador da expressão nesta campanha – utilizou os conceitos de carreira, progressão, projectos futuros, etc. e a discussão desenvolveu-se em torno destes conceitos, pelo que se pode concluir que a abordagem ao tema acontece apoiada no segundo ângulo exposto.

Ora, neste sentido, encontramo-nos perante um erro conceptual. Pois não faz sentido utilizar a expressão “Político Profissional” porque não há políticos profissionais. Não existe a profissão de político. Não há uma carreira profissional na política. Não existem funções gerais nem específicas do político. Nem existe formação concreta para a prática da política. Assim como não existe a “Ordem dos Políticos” ou o “Sindicato dos Políticos”.

O exercício da política surge como um serviço livre à comunidade por parte de pessoas com as mais diversas profissões e formações – advogados, economistas, médicos, sociólogos, etc. – que só exercem essas funções porque se disponibilizam para tal e, por sua vez, os restantes membros da comunidade concordam e apoiam, vendo neles seus representantes. Naturalmente, como cessam as suas actividades normais, merecem receber uma compensação financeira, mas que não é uma remuneração normal. Não recebem por serem políticos, mas recebem por serem presidentes, ministros, governadores, administradores etc.

Os políticos não tiram o curso de política e depois empregam-se fazendo política, e gerem uma carreira na política. A política está para além desse conceito de profissão. Um político só integra longos percursos políticos quando demonstra qualidades superiores que lhe permitem alcançar tais lugares de liderança, mas sempre estando em concordância com aqueles que o apoiam, pois são os mesmos que atribuem tais cargos.

Esta constatação é tanto mais real quanto mais democrático e republicano for o regime. E mesmo nos regimes totalitários não faz sentido utilizar o conceito de “Políticos Profissionais”. Um líder imposto aos seus súbditos não é profissional por isso. Um príncipe que seja formado toda a sua vida com o objectivo de ser um bom rei e representar bem – politicamente – o seu país, não é um profissional. Tem um título e não uma profissão.

O exercício da política é um acto de liberdade. Deve ser efectuado com o máximo de profissionalismo e respeito pelos direitos humanos. Mas um político, enquanto actuante na política, não é, só por isso, um profissional. Pois não existem políticos profissionais.


10 de Dezembro de 2005

Sá Lopes

O Fim da Língua Portuguesa

artigo-opinião

O Fim da Língua Portuguesa


O Primeiro-Ministro, José Sócrates, em cumprimento de uma das suas promessas eleitorais – por ventura, uma das mais bem recebidas pela população – deu já início à implementação do ensino do Inglês no 1º Ciclo do Ensino Básico.


Embora ainda na sua fase inicial, fácil será prever que, em breve, todas as escolas do primeiro ciclo terão aulas de Inglês. Aliás, já escolas havia que se vangloriavam por ensinar esta língua estrangeira anteriormente à aplicação da medida do governo, como também, a mesma língua era ensinada mesmo no ensino pré-escolar, a meninos com menos de 6 anos.

Os próprios pais destes meninos ficam muito satisfeitos por verem os seus filhos dominarem uma língua exterior, mesmo quando, eles próprios, mal compreendem o Português.

Acrescente-se a isto um conjunto de outras realidades que apenas servem para aumentar, exponencialmente, o uso da língua inglesa, tais como o uso das novas tecnologias; a internet; os próprios manuais dos produtos adquiridos em Portugal, que contêm traduções incompreensíveis… Enfim, a globalização!...

As empresas, ainda que portuguesas, comunicam, entre si, em língua inglesa. Os congressos científicos realizados em Portugal utilizam o Inglês como língua oficial. Nas universidades, os professores indicam referências de obras em língua inglesa e aconselham os alunos a saberem Inglês para poderem concluir os estudos. As editoras não traduzem muitas obras de referência porque o mercado (por ser pequeno) não é compensador.

As marcas, com origem em Portugal, vendem mais se forem “inglesas”, e as rádios só passam música inglesa, ainda que de bandas portuguesas (com nome inglês), porque, para os jovens, cantar “i love you and you love me too” é bonito, mas cantar “eu amo-te e tu também me amas” é “pimba”.

Muitas vezes se vêm os políticos e outros representantes de Portugal a falar em Inglês para estrangeiros, mas dificilmente se vêm estrangeiros a falar Português para portugueses.

Naturalmente que o mundo seria mais compreensível – e quiçá mais justo – se todos falássemos a mesma língua, pois as energias que se gastam a aprender, traduzir e ensinar outras línguas poderiam ser encaminhadas para objectivos mais benéficos para o ser humano.

Mas a história e a natureza do ser humano são o que são, e a sua diversidade é uma das suas maiores riquezas. Se um dia vai haver uma linguagem universal, quem viver verá! A história humana é imprevisível, ainda que o Inglês aparente seguir esse rumo.

Uma coisa é certa, por ser mais pobre, a língua inglesa é muito mais fácil de aprender do que a portuguesa. É muito mais fácil falar e escrever, sem erros, em Inglês do que em Português. O que significa que, é necessário mais esforço para aprender Português do que para aprender Inglês. E o ser humano, por natureza, procura o caminho mais fácil. O que implica um maior investimento no mais difícil.

É exactamente o que o governo não está a fazer.

Portugal quase já perdeu a sua autonomia política e económica. Neste caminho, será dos primeiros a perder a sua histórica linguagem. Já há países – ex-colónias – que trocaram a língua oficial de Português para Inglês. Resta-nos o grande Brasil, que mantém esta língua, mas, na sua versão, vai passar a ser – como em muitos locais já é – brasileiro.

É bom ser português e viajar pelo mundo inteiro sem problemas porque se sabe falar Inglês. Mas quando Portugal deixar de falar Português, quem vai ser o português por esse mundo fora?!

A nossa língua é o que nos resta da nossa identidade! Será que a queremos enobrecer? Ou será a primeira das grandes línguas a morrer em nome da globalização?

As crianças que hoje iniciam a aprendizagem do Inglês vão utilizar apenas esta língua no seu futuro profissional, daqui a 20 ou 30 anos. E nesse tempo, vão ser inúteis manifestações de minorias radicais em prol de uma língua, que em breve, fará parte – apenas – da história da humanidade.

19 de Outubro de 2005

Sá Lopes